Beber ou não beber álcool?

Em Discussão: um brinde à vida
Flávia Benvenga

O que fazer diante da tentação de brindar com amigos, familiares ou colegas de trabalho nos incontáveis compromissos de dezembro e janeiro? “O que mais influencia na decisão de beber ou não beber álcool é o controle do diabetes”, resume o cardiologista Protásio da Luz, diretor da Unidade de Aterosclerose do Incor. “Se a glicemia e a hemoglobina glicada estão dentro dos limites (a primeira até 99 mg/dL, em jejum, e a segunda abaixo de 6,5%), o diabético pode ingerir bebidas alcoólicas sem receio. Entretanto, minha experiência no consultório mostra que uma grande parcela dos diabéticos está mal controlada”. Por isso, sinal de alerta antes de apreciar um bom vinho ou tomar aquela cervejinha com os amigos. Para os que são controlados, estão com o índice de triglicéridos em ordem e não abrem mão de um drinque, é importante tomar cuidado para evitar crises de hipoglicemia e incluir a bebida na contagem diária de carboidratos. “Já o portador de diabetes com a glicemia descompensada não deve ingerir bebida alcoólica. É alto o risco de a hiperglicemia evoluir para um coma, porque as pessoas também costumam exagerar na comida nesta época do ano”, alerta a nutricionista Miyoko Nakasato, do Incor. Segundo ela, os que bebem sem se preocupar com a alta concentração de açúcar no sangue, e acham que está tudo bem porque não apresentam sintomas mais evidentes, devem ficar atentos. “O diabetes é uma doença silenciosa. Quanto mais tempo o portador do diabetes permanece com a glicemia descompensada, mais rápido é o surgimento de complicações cardiovasculares. Assim, se o portador do diabetes bebe descompensado, acelera esse processo”, esclarece Miyoko.

Dose certa
Segundo a Associação Americana de Diabetes (ADA), o consumo máximo diário de bebida alcoólica para os homens deve ser de até duas doses de álcool (30 ml) — o equivalente a duas taças (de 125 ml cada) de vinho tinto ou uma garrafa de cerveja — e, para mulheres, até uma dose (15 ml). “As mulheres devem consumir a metade da indicação dos homens, porque possuem menor quantidade de água corporal para a distribuição do álcool e também menor capacidade de metabolizá-lo no estômago”, explica a nutricionista Miyoko Nakasato. Vale destacar que essa recomendação da quantidade de ingestão de álcool se refere a todas as pessoas, diabéticas ou não. Isso porque o excesso de álcool é capaz de prejudicar o fígado, elevar a pressão arterial, aumentar o nível de triglicérides e as taxas de açúcar no sangue.
A nutricionista alerta ainda que o diabético deve tomar cuidado redobrado para evitar episódios de hipoglicemia após a ingestão de álcool. “Enquanto o fígado não eliminar todo o álcool, a glicose não será produzida e a queda do nível de glicose, nessa fase, pode
ter como conseqüência a hipoglicemia”, explica Miyoko. “Para prevenir uma crise, só consuma bebida alcoólica junto com a refeição ou após um lanche. Dessa forma, a absorção do álcool é retardada”.
Mas por que a bebida alcoólica interfere na glicemia? “Em condições normais, quando o nível de glicose no sangue cai muito, o fígado transforma o carboidrato armazenado no organismo em glicose e joga esta glicose na corrente sangüínea, evitando a hipoglicemia”, observa a nutricionista.
“Mas, quando há consumo de álcool, o organismo reage como se ele fosse um ‘veneno’ e o fígado trabalha para eliminá-lo rapidamente do sangue”. É por esse motivo que o fígado não produzirá glicose até finalizar o metabolismo do álcool. E, se o nível de glicose cair nesse período, a queda poderá ser muito rápida, causando a hipoglicemia.
Outra dúvida muito comum é sobre a combinação de bebidas alcoólicas com remédios — prescritos a muitos diabéticos. O cardiologista Protásio da Luz explica que, em geral, essa combinação não é problemática, desde que o medicamento seja ingerido com água e não com bebida alcoólica. Com exceção de um medicamento antigo prescrito aos diabéticos, chamado Diabinese (clorpropamida), integrante da primeira geração das sufoniluréias, que pode causar mal-estar quando associado ao álcool. Mas alerta: “É sempre bom o médico ser consultado e, principalmente, obedecer à recomendação da dose diária”.

Calorias vazias
Um aspecto importantíssimo sobre a bebida alcoólica é o alto índice calórico: cada grama de álcool fornece sete calorias — contra quatro de carboidratos e proteínas. É aí que mora mais um perigo ao diabético. “O álcool interfere na glicemia porque tem carboidrato e calorias”, salienta Protásio. “Por isso, precisa entrar no cálculo da contagem de carboidratos”. Segundo a endocrinologista Carolina Piras, o álcool também é contra-indicado para quem tem alta taxa de triglicérides, uma complicação clássica de diabéticos: “Como a bebida é fonte de carboidrato, sua ingestão favorece a produção dessa gordura que, em excesso, leva a problemas cardiovasculares”.
Além disso, o álcool é um exemplo de fonte de calorias vazias, isto é, alimentos que proporcionam apenas energia ao organismo, sem conter nutrientes importantes. Em contrapartida, isso não signifi ca que as bebidas alcoólicas não façam bem à saúde. Pesquisas apontam que, ao serem consumidas com moderação, sobretudo o vinho tinto, estão associadas a um menor risco de doenças do coração. “Não há dúvida de que o vinho tinto é a bebida mais indicada para o diabético controlado apreciar”, orienta Protásio. “Publiquei recentemente um estudo mostrando que a ingestão moderada de álcool diminui o risco de mortalidade por doenças cardiovasculares em diabéticos e não-diabéticos”. A nutricionista Miyoko acrescenta que o diabético deve evitar as bebidas alcoólicas adocicadas, como licores e vinhos doces. “Os destilados têm maior teor de álcool”, completa.

Corpo e mente
Alimentação e consumo de álcool são questões consideradas delicadas pela maioria dos diabéticos. Envolvem cuidados e, muitas vezes, privações de dois grandes prazeres do ser humano:
comer e beber. A medicina tem avançado no sentido de evitar proibições e permitir que as pessoas não se sintam diferentes por causa da doença.
“Quanto menos restrição, melhor será o tratamento”, opina Protásio. “E é por esse motivo que repito ao diabético: coma direito, faça atividade física regularmente e meça sempre a glicemia. Essa é a garantia para aproveitar os prazeres da vida”.
Mas é preciso saber lidar com a pressão social que associa as bebidas alcoólicas a comemorações, homenagens, celebrações… “São situações que pressupõem um bem-estar, permitindo a liberação de substâncias que geram prazer, como as endorfinas”, observa a psicóloga Lílian Sharovsky, do Incor. “No entanto, é preciso ter em mente que o importante é pertencer a um grupo e o que vale não é o conteúdo do copo”.
Sob o ponto de vista psicológico e emocional, a ingestão de álcool não é algo recomendável. “Entretanto, a partir do momento que se escolhe ingeri-lo há que se considerar qual o objetivo do uso (social, fuga, tristeza, solidão, entre outros) e a capacidade de livre arbítrio em interromper”, esclarece Lílian. O problema se torna patológico quando a ingestão vira obrigação, gerando uma necessidade e até a escravização da pessoa.
Existe também a possibilidade de o diabetes interferir em questões psicológicas e favorecer situações de estresse, ansiedade e depressão. De acordo com a psicóloga, toda pessoa portadora de uma doença crônica pode apresentar uma hiperatividade emocional. “É comum o paciente diabético acreditar que, se a doença não tem cura, suas chances para uma vida prazerosa estão limitadas, contribuindo para o isolamento social, o que pode favorecer um quadro depressivo”, afirma. “Mas isso acontece, sobretudo, com pacientes que encaram a vida social de forma distorcida. O vínculo afetivo não é estabelecido pelo que as pessoas comem, bebem ou deixam de beber, e sim pelo que elas são”.

Saiba se você pode beber
Para ter certeza de que você tem o perfi l de um diabético que pode beber, é importante se fazer algumas perguntas:

* Tem índices de glicemia e triglicérides controlados?
* Sua alimentação é balanceada?
* Faz exercícios físicos regularmente?A balança aponta um peso saudável?
* Não tem problemas cardíacos, hepáticos, pancreatite,neuropatia ou alguma outra complicação?

Se responder sim a cada uma das questões, não há razão para se privar de um brinde com amigos ou parentes. Mas, caso a resposta seja negativa para qualquer das perguntas, a orientação é não beber. Se restarem dúvidas, não vacile: consulte seu médico. Somente ele poderá dar a palavra final.

CONSUMO X EFEITOS
ABUSIVO: coma alcoólico
MODERADO: euforia, desinibição, enrubescimento da face, facilidade para falar
EXCESSIVO: falta de coordenação motora, descontrole, mal-estar, tontura, sono
A intensidade desses efeitos varia conforme o metabolismo de cada um. O consumo exagerado de bebidas alcoólicas pode levar à dependência ou ao alcoolismo — que atinge entre 5% e 10% da população brasileira

A mais antiga droga
É considerada bebida alcoólica aquela que contêm álcool, etanol, produzido por meio de fermentação ou destilação de vegetais como a cana-de-açúcar, frutas, cereais e grãos. O teor alcoólico pode variar de 5% (cerveja) a 50% (vodca) de etanol.
A palavra álcool é originária do árabe (al-kuhul), que significa líquido. É a droga mais antiga que se tem notícia. Os registros históricos indicam que, por volta de 600 a. C., as bebidas alcoólicas tinham conteúdo alcoólico extremamente baixo, como o vinho e a cerveja, pois dependiam do processo exclusivo de fermentação.
Na Idade Média, com o advento da destilação, introduzida na Europa pelos árabes, surgiram novos tipos de bebidas. As destiladas passaram a ser consideradas como remédio para qualquer tipo de doença, por terem a propriedade de aliviar a dor e por “dissiparem” as preocupações mais rapidamente do que o vinho e a cerveja. Foi nessa época que surgiu o uísque, que significa “água da vida”. Mas, desde 500 a.C., na Babilônia, a bebida alcoólica está relacionada a diversos rituais. Esse povo, por exemplo, ofertava cerveja a seus deuses. E até hoje o vinho integra cerimônias católicas, protestantes e judaicas.

Complicações etílicas
Existem vários casos em que a ingestão de bebida alcoólica é severamente proibida, mesmo se a glicemia estiver dentro dos padrões normais. Conheça-os e veja o efeito do álcool em cada um deles:
• Arritmia: pode desencadeá-la
• Insuficiência cardíaca: álcool reduz a capacidade do músculo
cardíaco
• Disfunções hepáticas: pode causar lesões nas células do fígado
• Pancreatite crônica: doença está associada ao consumo de etanol
• Hipertrigliceridemia: favorece o acúmulo de gorduras (ácidos
graxos) no fígado
• Neuropatias: consumo excessivo de álcool reduz vitaminas
importantes para os nervos
• Gastrite: gera acidez gástrica, podendo provocar ou agravar
gastrite, úlcera e até câncer gástrico

Fonte: http://www.editoralua.com.br/PortalLua/SaboreVida/Artigo.aspx?id=99

Sobre Daniela

www.diabetesedai.blogspot.com
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